Uma refexão

By Corrida de Rua Updated on:

Não é incomum encontrarmos pessoas que quando criança (e até mesmo adultos) almejassem pisar em um gramado de futebol defendendo a seleção em uma final de copa do mundo, pilotar um F1 a mais de 300 km/h ou qualquer varição esportiva que o valha.

O mais perto que a absoluta maioria das pessoas consegue é um jogo treino no estádio fora de temporada, uma volta como passageiro em uma pista de corrida. Você pode ter a sorte de ser o primo do sobrinho do tio da mulher de um grande atleta e bater uma pelada com ele no final de semana. Vai ser legal pra caramba, mas igual ao seu sonho?

Quase todas as profissões do mundo são assim na verdade. Mas o mundo das corridas de rua possui uma democracia tão grande que excetuando provas específicas como dos jogos olímpicos, eu poderei estar ali, lado a lado com os maiores atletas da modalidade.

Diferente dos outros esportes, eu não estarei em uma prova ao lado dos atletas de ponta e isso muda toda a "experiência" e penso que quando nossa idade já tiver avançado ao ponto de talvez não ser capaz de correr (ou muitas outras coisas) e exceto em condições de não me lembrar do que já fiz, serei apenas lembranças. Sejam elas boas ou não.

Eu como músico não poderei pegar meu instrumento e subir ao palco de uma das apresentações durante a virada na Paulista por exemplo embora ela seja uma via pública. Esse é um argumento muitas vezes utilizado por algum corredor sem entender que naquele momento, as vias foram "alugadas" para o evento ou você conhece alguém que vai assistir jogo no Pacaembu gratuitamente por ele ser público. E como você trataria alguém que quisesse adentrar seu evento no Pacaembu caso o alugasse?

No mundo das corridas, essa prática é denominada "pipoca" que até é um termo simpático perante a "bandit" usado na língua inglesa e tenho um monte de amigos corredores que usam dessa prática argumentando que não pegam hidratação ou medalha ao fim da prova, mas vamos combinar que se alguém faz isso, ela realmente está mal intencionada se aproveitando da infraestrutura de algo que não lhe pertence.

Fiquemos no caso do corredor que só quer correr e não quer atrapalhar ninguém...

Em 2016 no entanto, um pipoca chamou outro para correr, outros vieram com grupos de dez ou mais amigos. Haviam aqueles inclusive uniformizados e escarniando quem pagou para participar da São Silvestre que é disparado a prova mais popular do Brasil. Grupos de Whatsapp foram se disseminando para os pipocas participarem e a prova que já possuia 30 mil inscritos, teve uma adesão segundo a organização da prova de 35% de pipocas ao total. Mais de dez mil corredores pipoca somaram-se ao percurso tornando a experiência desagradável para algumas pessoas.

Quem corre, sabe que uma prova com dez mil corredores já é uma prova grandiosa quanto ao número de participantes. A São Silvestre nesse caso é gigante e o limite do número de inscritos é também uma forma de se assegurar a segurança dos atletas. Se existe tanta procura, por que não continuam inscrevendo atletas? Exatamente por essa margem de segurança.

A prova foi traumática para algumas pessoas e eu cogitei encerrar minha participação na prova por ali até que em 2017, uma forte campanha foi encabeçada após essa prova e voltei para a prova do ano passado. De cara, para acessar a Paulista e se colocar para a largada, era difícil até para quem estava devidamente identificado (e já corri em prova fora do Brasil que reclamei disso). Infelizmente o todo paga por parte de corredores que procuram se beneficiar nesses casos. E ao final da prova (que baixou para somente 8% de pipoca), tínhamos uma prova completamente diferente do ano anterior. Ela me fez voltar a ter a vontade de percorrer novamente esses tão conhecidos 15k e a direção de prova promete dificultar ainda mais a participação dos pipocas para que os corredores inscritos tenham uma melhor experiência.

O inofensivo pipoca (sim, ele existe), pode frustar um pouco a experiência de alguns atletas, além de que se tem uma coisa que a medalha possui, é a de sintetizar essa lembrança no futuro, pois não é a mesma coisa você correr em Volta da Pampulha só ou com um grupo de amigos. Essa é uma outra experiência e absolutamente válida por sinal. Eu por sinal, já fiz diversas vezes o percurso de determinada prova, mas ela é completamente diferente de feita quando na prova. A experiência vai muito, mas muito além de quando feita em outro horário. Não fosse por isso, o pipoca faria o trajeto um dia antes de qualquer prova que queira fazer.

Em tempos de internet, é muito comum as pessoas julgando as outras pessoas. Não é essa minha função. Eu apenas relato que sinto a experiência mais plena dessa forma.

Um amigo pipoca de carteirinha correu por diversas vezes uma maratona. Um ano, foi sorteado e pode correr a maratona inscrito. Adivinha qual edição ele mais gostou? Ah... ele já se inscreveu para a mesma edição do ano que vem.