O dia que deu tudo certo!
By Demétrius Updated on:
Já narrei algumas vezes algo que não deu certo em uma corrida, seja ela em uma experiência minha ou de algum outro corredor. São dias que acontece algo e que por algum motivo, a expectativa não seja alcançada. Mas o que podemos falar do dia em que elas tenham sido suplantadas sem sequer terem sido programadas?
Então vamos lá: Primeiro que eu nem participaria dessa corrida pois em sua data original. eu tinha outra prova pré agendada para cobrir. Para saber mais sobre a prova, clique aqui e para saber sobre o adiamento da prova, clique aqui.
Uma vez alterada a data original da prova, abriu-se a oportunidade de cobrir o evento e da forma que eu mais gosto que é correndo. A prova tinha as distâncias de 5k e 10k e eu como maratonista, em 99% das vezes opto pela maior distância e assim foi dessa vez. Estava eu inscrito na distância de 10k.
Maratonista, sou da resistência e não exatamente da velocidade. Até porque meus quase 1,90m de altura imprimem um peso extra para se carregar mas vez por outra, a gente procura acelerar.
Quem me conhece e corre frequentemente comigo sabe que eu escolho corridas para correr com a "faca nos dentes" e outras apenas para "treinar" ou mesmo para cobrir sendo possível que eu acompanhe algum corredor mais lento ou principiante.
Nesse dia em específico, a ideia era ser "coelho" para a Daniela que costuma morder seus pódios. Uma corrida praticamente em linha reta com retorno nos 5k. A questão era a areia fofa que realmente pesou muito na minha performance mas uma vez dada a largada, dei o máximo que pude com a sensação inclusive que tinha dado até demais e possivelmente quebraria. Esse pensamento se fez presente já por volta do quilômetro 3 e então passei a pensar em continuar no máximo até o quilômetro 5 e avistar a Daniela no retorno para lhe dizer em que lugar estava e assim poder desacelerar quase que em ritmo regenerativo até o final da prova.
Mas o que você faz quando nesse retorno você percebe que não há muitos corredores na sua frente?
Eu não podia entregar a posição que estava sem lutar, mas eu sentia que não tinha fôlego suficiente para continuar no pace em que estava por mais 5 quilômetros e tive que fazer um acordo mental comigo mesmo.
Continuar tentando pelo menos até que eu fosse ultrapassado e daí poderia entregar os pontos. A questão é que passo a passo ia avançando e não era ultrapassado. Corri por mais um quilômetro, dois quilômetros e no terceiro começo a sentir que um corredor se aproximava.
Embora eu tentasse manter o ritmo, senti que seria ultrapassado e enfim poderia segurar o ritmo, mas quando o atleta emparelha ao meu lado, percebo que ele era bem mais novo do que eu. Chutaria uns 27 anos, ou seja, ele não estaria disputando comigo pela faixa etária.
Cerca de 50 metros percebo um atleta perdendo velocidade e resolvi que tentaria pegar aquele lugar, mas quem corre sabe que 50 metros em uma corrida é uma distância considerável. Levei cerca de um quilômetro para chegar nele e confesso que resolvi dar uma descansada de cerca de 30 segundos para enfim nos últimos 400 ou 500 metros imprimir o resto de energia que tinha.
Depois de descanso mais cansado da minha vida, era hora do ataque. O pórtico já era visto, a voz do locutor tornava-se cada mais audível e eu comecei acelerando. O outro corredor certamente tinha pensamentos semelhantes e resolveu que não entregaria o posto.
Próximo de nós, não havia outros corredores. Se eu não conseguisse ultrapassar, poderia praticamente caminhar, ou no mínimo trotar para chegar na posição em que eu na verdade não sabia até ali qual era.
Nossa luta com os dois dando o último gás se travou por uns 200 metros e com 80 metros para a chegada, senti que estava na frente. Minha mente só enxergava a chegada, não ouvia mais nada ao meu redor e só pensava em acelerar o máximo que eu pudesse. Já não conseguia sequer ver o adversário. Fui engolido por um silêncio ao redor. Parecia ser possível escutar apenas minha respiração ofegante mas fiz o que foi possível até cruzar o pórtico em câmera lenta.
O mundo parecia voltar a normal. A velocidade das coisas ao redor se normalizavam. Era como se meus ouvidos se abrissem e eu pudesse escutar todo o som ao redor novamente. Sinto um vulto quase que imediatamente me passar. Em outras palavras, era o suficiente para que eu pudesse levar para casa esse troféu e consequentemente mais uma história para a posteridade.
Anderson Lagares, diretor técnico da prova me vê buscando oxigênio sei lá de onde e preocupado me pergunta se eu estava bem.
Só cansado respondi...
